Sidrolândia, 18 de outubro de 2026

Câncer tem cura? Especialistas esclarecem as principais dúvidas sobre a doença

Imagem: Vitanovski/iStock
Imagem: Vitanovski/iStock

Todos os dias, bilhões de células no corpo humano se dividem ou morrem, como parte dos processos complexos que garantem o funcionamento do corpo, como o fluxo sanguíneo a partir do coração, o trânsito dos alimentos pelo intestino e a regeneração da pele. No entanto, ocasionalmente, algo sai do controle, e as células que deveriam morrer ou interromper seu crescimento continuam se multiplicando. Se não forem devidamente controladas, essas células podem se transformar em câncer.

A dúvida sobre quando e por que isso acontece – e o que pode ser feito para evitar – tem intrigado cientistas e médicos especializados em câncer por muito tempo. Embora muitas questões ainda permaneçam sem resposta, houve grandes avanços na compreensão e no tratamento da doença. “Hoje, temos muito menos receio de dizer aos pacientes o que sabemos e o que não sabemos, porque agora sabemos muito mais”, afirmou George Demetri, vice-presidente sênior de terapias experimentais do Instituto do Câncer Dana-Farber, em Boston.

Por que algumas mutações genéticas causam câncer e outras não?

Antigamente, os cientistas acreditavam que as mutações genéticas – alterações na sequência de letras do DNA – eram a principal causa de todos os tipos de câncer. Embora estivessem parcialmente certos, essa explicação não é completa. “As mutações são muito importantes, mas não explicam totalmente o surgimento de um tumor”, explicou Douglas Hanahan, do Instituto Ludwig para a Pesquisa do Câncer, em Lausanne, na Suíça. Algumas mutações permanecem inativas ao longo de toda a vida, sem jamais causar o câncer.

Agora se sabe que, além das mutações no DNA, existem outros fatores que alteram a maneira como os genes são expressos. Essas mudanças são chamadas de alterações epigenéticas, e os cientistas descobriram que elas desempenham um papel crucial no desenvolvimento do câncer. Embora ainda não compreendam totalmente o que provoca essas alterações epigenéticas, acreditam que fatores como envelhecimento, dieta, ambiente e inflamação crônica podem ser responsáveis por elas.

A poluição pode causar câncer?

Os cientistas já sabem há muito tempo que substâncias químicas como amianto, radônio, além das presentes na fumaça do cigarro e no álcool, podem provocar câncer. No entanto, pesquisas recentes têm levantado preocupações sobre os riscos da poluição atmosférica, dos microplásticos e das substâncias perfluoroalquílicas e polifluoroalquílicas, conhecidas como PFAS. “Existem indícios de que essas substâncias possam ser cancerígenas, mas precisamos de muito mais informações para entender quais tipos de câncer, quando e como elas podem causar”, afirmou Kimryn Rathmell, ex-diretora do Instituto Nacional do Câncer.

As evidências são mais robustas no caso da poluição atmosférica. Estudos demonstraram que as partículas finas, conhecidas como PM 2,5, aumentam o risco de câncer de pulmão e de mama, informou Loretta Erhunmwunsee, professora associada de cirurgia torácica no City of Hope, centro nacional de pesquisa e tratamento do câncer.

É provável que a quantidade de poluição à qual uma pessoa foi exposta e a duração dessa exposição sejam fatores relevantes. Estudos mostram que a população negra nos Estados Unidos está exposta a níveis desproporcionalmente altos de poluição atmosférica e também apresenta taxas mais elevadas de câncer de pulmão e de mortalidade por essa doença em comparação com outros grupos raciais. “Agora sabemos que o contexto social de fato influencia muitos dos resultados do câncer que observamos, e até mesmo o desenvolvimento da condição e o risco de contrair a doença”, afirmou Erhunmwunsee.

Como a inflamação está relacionada a tudo isso? Por anos, os cientistas buscaram substâncias químicas em nossa dieta e no ambiente que pudessem causar mutações genéticas. No entanto, de acordo com Robert Weinberg, professor de biologia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, está ficando cada vez mais claro que, se essas exposições aumentam o risco de câncer, isso ocorre provavelmente por meio da indução de uma inflamação, e não por danos diretos ao DNA. No intestino, por exemplo, uma alimentação inadequada pode desestabilizar o microbioma, permitindo que certas bactérias cresçam descontroladamente. Davendra Sohal, oncologista especializado em cânceres gastrointestinais no Centro de Câncer da Universidade de Cincinnati, afirmou que os cientistas acreditam que essa disbiose pode gerar uma inflamação crônica, o que pode levar ao desenvolvimento de câncer de cólon ou de pâncreas.

A inflamação pode também favorecer o câncer em células que já sofreram mutações. Um exemplo disso é que as partículas PM 2,5 causam inflamação nos pulmões, ativando células mutantes inativas e promovendo a formação de tumores.

O que faz com que os tumores cresçam de forma descontrolada? O câncer não é apenas um conjunto de células anormais que se multiplicam sem controle. Os cientistas agora entendem que os tumores são tecidos complexos compostos por células cancerosas e células normais recrutadas para apoiar seu crescimento. Muitas dessas células normais são semelhantes às que se acumulam em um local de lesão ou infecção para auxiliar na cicatrização, promovendo a multiplicação celular, a formação de vasos sanguíneos, a produção de novo tecido conjuntivo e a defesa contra ataques do sistema imunológico. Essas são funções que as células cancerosas podem explorar indefinidamente para manter seu crescimento. “Os tumores são feridas que não cicatrizam”, afirmou Hanahan, citando uma observação transformadora de Harold Dvorak, patologista da Universidade Harvard, feita na década de 1980.

Ainda há muito mistério sobre o processo pelo qual os tumores se tornam metastáticos – ou seja, se espalham e se instalam em locais distantes, afirmou Kevin Cheung, professor associado de hematologia e oncologia no Centro de Câncer Fred Hutch, em Seattle. Sua pesquisa recente mostrou que as células mortas e moribundas de um tumor podem criar um ambiente que facilita a liberação e a disseminação das células tumorais vivas. Outros estudos indicam que as células do sistema imunológico podem transferir seu conteúdo para as células tumorais, tornando-as mais invasivas.

Quais fatores de risco estão realmente sob nosso controle? Muitos casos de câncer surgem por razões completamente além do nosso controle. “Sempre haverá alguns casos, mesmo com as melhores estratégias de prevenção”, observou Rathmell. No entanto, a profilaxia pode fazer uma diferença significativa. Epidemiologistas estimam que 40% dos cânceres – e uma proporção semelhante das mortes pela doença – podem ser atribuídos a fatores de risco que as pessoas podem controlar. O maior deles é o tabagismo, mas a lista também inclui a exposição ao sol, o consumo de álcool e o excesso de peso.

Além disso, algumas infecções, como as causadas pelos vírus da hepatite B e C, pelo papilomavírus humano (HPV) e pela bactéria H. pylori, também podem contribuir para o desenvolvimento de certos tipos de câncer. A vacinação contra o HPV e os exames para detectar a hepatite e a H. pylori podem ajudar a reduzir esses riscos.

Qual é a melhor forma de tratar o câncer? Até algumas décadas atrás, o tratamento do câncer era repleto de incertezas. “Basicamente, dávamos venenos e torcíamos para o melhor”, afirmou Demetri. No entanto, hoje os oncologistas têm uma compreensão mais clara sobre quem pode se beneficiar da quimioterapia – que utiliza toxinas para destruir tanto células saudáveis quanto cancerosas – e quem pode responder melhor a tratamentos mais direcionados, como medicamentos que atacam uma proteína defeituosa específica presente no câncer.

Além disso, os médicos agora têm à disposição tratamentos mais avançados, em parte devido a uma compreensão mais profunda sobre o papel do sistema imunológico no câncer. “Compreender como o sistema imunológico funciona, o que diferencia as células, o que as ativa ou inativa, e quando estimulá-las ou inibi-las – tudo isso precisava ser entendido antes que pudéssemos tentar manipular esses processos”, explicou Rathmell.

Essa capacidade de controle deu origem a um novo campo de tratamento, chamado imunoterapia. Hoje, os médicos podem remover os freios das células T – células do sistema imunológico que combatem as células cancerígenas – com o uso de inibidores de pontos de controle, aplicados em tratamentos de cânceres de pulmão, pele e outros. Além disso, é possível modificar as células T para que reconheçam e destruam as células cancerosas, uma abordagem utilizada na terapia com células CAR-T, que tem se mostrado especialmente eficaz no tratamento de cânceres hematológicos.

O câncer pode ser curado? Embora muitas pessoas considerem que um câncer está “curado” quando entra em remissão, os médicos historicamente evitam afirmar a erradicação total da doença. “Nunca ousamos usar a palavra ‘cura’”, disse Marcel van den Brink, presidente do Centro Médico Nacional City of Hope. No entanto, tratamentos mais recentes, como transplantes de células-tronco e terapias com células CAR-T, trouxeram uma nova esperança. “Houve uma mudança radical, de ‘você vai morrer desse câncer’ para ‘temos terapias promissoras com as quais podemos trabalhar’”, afirmou Rathmell.

Mesmo sem sinais da doença, alguns tipos de câncer podem voltar, e, nesses casos, os médicos adotam uma abordagem mais cautelosa ao falar sobre prognósticos. No entanto, há motivos para otimismo: as taxas de mortalidade por câncer caíram drasticamente nos últimos 30 anos. Hoje, existem medicamentos direcionados a genes relacionados a cânceres que antes eram considerados intratáveis. “Alguns tipos de câncer eram vistos como uma sentença de morte”, lembrou Sohal. Atualmente, eles são mais comparáveis ao diabetes – uma condição complexa, mas tratável, com efeitos colaterais controláveis. “As pessoas vivem com a doença por um longo período.”


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