Sidrolândia, 18 de outubro de 2026

Forte declínio na popularidade de Lula levanta incertezas sobre 2026

Foto: Evaristo Sá
Foto: Evaristo Sá

Uma sequência de números preocupantes acendeu de vez o sinal de alerta no Palácio do Planalto. A impaciência dos eleitores com o desempenho de Luiz Inácio Lula da Silva ficou evidente em uma série de pesquisas recentes, todas apontando na mesma direção: pela primeira vez, a reprovação do governo superou a aprovação.

A pesquisa mais recente, divulgada pelo Paraná Pesquisas na quarta-feira (19), revela que 55% dos brasileiros desaprovam Lula, enquanto 42% o aprovam. Quanto ao desempenho do governo, 45% dos entrevistados classificam a gestão como “ruim” ou “péssima”, enquanto 28,8% a avaliam como “boa” ou “ótima” e 25% a consideram “regular”.

É fato que a popularidade de um presidente pode oscilar ao longo do mandato. Desde a redemocratização, todos os ocupantes do Palácio do Planalto enfrentaram variações em sua avaliação, especialmente em períodos de instabilidade econômica. Esse foi o caso de José Sarney (MDB), que encerrou seu mandato com apenas 9% de aprovação em meio à inflação descontrolada. Da mesma forma, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) viu sua popularidade despencar para 13% no primeiro ano de seu segundo mandato.

O cenário atual enfrentado por Lula, porém, apresenta agravantes que podem dificultar ainda mais a recuperação de sua imagem. Além da ausência de conquistas significativas nesta gestão, a economia do país gera preocupações, com a inflação ameaçando fugir do controle e impactando diretamente a percepção da população. “Quem vai ao mercado sente que tudo está mais caro, e isso sempre foi um fator determinante na popularidade de um presidente”, explica o cientista político Elias Tavares. “As pessoas esperavam que ele entregasse resultados semelhantes aos de seus primeiros mandatos.”

Aos poucos, como indicam as pesquisas, até a base mais fiel a Lula passou a demonstrar sinais de desconfiança. Um levantamento do Datafolha, divulgado no último dia 14, revelou que a popularidade do presidente caiu 20 pontos percentuais entre seus eleitores tradicionais entre dezembro e janeiro. A taxa de aprovação de Lula entre aqueles que votaram nele era de 66%, mas agora caiu para 46%. A debandada é mais evidente entre cidadãos de baixa renda, nordestinos e jovens — grupos nos quais o petista sempre teve forte apoio, mas que agora demonstram desilusão com a gestão atual, enxergando um governo incapaz de entregar a prosperidade prometida na campanha.

Além disso, para muitos, a administração petista parece cada vez mais distante de sua base histórica. “O PT hoje não é mais dos trabalhadores”, afirma Weser Costa, barbeiro de 43 anos e morador da Zona Sul de São Paulo, um tradicional reduto do partido. Filho de um pastor petista, ele pertence a um raro grupo de evangélicos de esquerda, mas perdeu a convicção que sempre teve ao votar no partido.

Além das questões ideológicas, o principal fator para a perda de popularidade do presidente é a inflação de produtos essenciais, que pesa no bolso dos brasileiros. “A dúzia de ovos está 20 reais. Nunca vi isso”, reclama Nilvan Queiroz, baiano de 70 anos e dono de um restaurante no centro de São Paulo. Aos 17 anos, ele deixou Ibotirama (BA), às margens do Rio São Francisco, em busca de uma vida melhor na cidade grande — e conseguiu. Em São Paulo, o empresário iniciou sua trajetória como garçom em uma pizzaria e chegou a ter três lanchonetes, mas precisou fechar duas durante a pandemia. O apoio de seu irmão, que ficou na Bahia, aos primeiros governos petistas influenciou seu voto em Lula nas últimas eleições. Contudo, o aumento dos preços dos alimentos e a crescente insegurança, que o obriga a encerrar suas atividades mais cedo nas noites de quinta, sexta e sábado, além de não abrir aos domingos, fizeram Queiroz se arrepender de sua escolha nas urnas.

Lula também perdeu apoio entre os mais jovens. Sabrina Umbelino, dona de casa de 23 anos, mora em Cidade Tiradentes, um bairro no extremo leste de São Paulo, onde o petista teve uma vitória expressiva nas eleições presidenciais de 2022. Na sua primeira vez votando para presidente, ela escolheu Lula. Sabrina é beneficiária do Bolsa Família e vive com os dois filhos e o marido, que recebe um salário mínimo. No entanto, o auxílio não tem sido suficiente para fazê-la acreditar novamente no presidente. Através da tela do celular, ela viu as promessas eleitorais de que os pobres poderiam até comer picanha, mas nunca conseguiu levar a carne para sua mesa. “A gente não consegue comprar um quilo”, lamenta.

O desgaste na base fiel de eleitores de Lula reflete diretamente no cenário político. Como resultado, parlamentares e partidos aumentaram seu poder de negociação, tornando-se mais exigentes para oferecer apoio ao presidente, em um governo que historicamente enfrentou desafios para garantir a governabilidade. Embora Lula tenha oferecido ministérios a partidos com grandes bancadas, não conseguiu assegurar o alinhamento total desses grupos com o Palácio do Planalto. Exemplos disso são os casos do PSD, de Gilberto Kassab, e do Republicanos, de Marcos Pereira. Aproveitando a queda de popularidade de Lula, ambos os líderes aproveitaram a oportunidade para criticar publicamente o petista. O presidente do Republicanos afirmou que Lula lidera um “governo sem rumo”. Já Kassab, líder do PSD, conhecido por suas projeções acertadas, declarou no final de janeiro que, se as eleições acontecessem naquele momento, Lula seria derrotado. Na mesma ocasião, Kassab também fez críticas à gestão econômica de Fernando Haddad, chamando-o de “fraco”.

Membros do governo reconhecem a gravidade da situação, mas ainda mantêm otimismo quanto à possibilidade de uma mudança de rumo. Acredita-se que grande parte dos problemas esteja na dificuldade de comunicar aos eleitores as boas iniciativas do governo. Para reverter essa percepção, o marqueteiro Sidônio Palmeira, novo chefe da Secretaria de Comunicação Social, foi recrutado e tem o diagnóstico de que a avaliação real sobre o governo é “muito menos negativa” do que indicam as pesquisas. No entanto, essa crença tem sido desmentida a cada novo levantamento.

No cenário político, a iminente reforma ministerial será uma tentativa de reforçar apoios entre os partidos do Centrão. Para Lula, o foco é retomar as viagens pelo país, o que ele já tem feito. “Ninguém se conecta com o povo como o Lula”, afirma Marco Aurélio de Carvalho, líder do Prerrogativas, grupo de juristas ligados ao PT. Contudo, a situação atual revela que esse vínculo histórico começou a se enfraquecer. O grande desafio na segunda metade do governo será reconquistar a confiança dessa base mais fiel e se reaproximar de segmentos além da bolha da esquerda, como parte da classe média urbana. Será uma verdadeira corrida contra o tempo.


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